Cansaço, queda de cabelo e frio constante podem ser sinais de um problema na tiroide. Em Portugal, mais de metade dos casos continua sem diagnóstico.
Acorda cansada todos os dias, perde cabelo sem razão aparente e sente frio mesmo quando ninguém à volta se queixa. Antes de culpar o stress ou a idade, há uma hipótese que merece atenção: a tiroide. Essa pequena glândula em forma de borboleta, alojada no pescoço, controla o metabolismo, o humor e a energia. E quando falha, os sintomas são tão comuns que passam facilmente despercebidos.
Em Portugal, mais de um milhão de pessoas é afetado por patologias da tiroide. O mais preocupante: mais de metade continua sem diagnóstico, segundo dados da SPEDM e do Grupo de Estudos da Tiroide.
Um problema maior do que parece
Os números não deixam margem para dúvidas. Cerca de 7,4% da população portuguesa tem um distúrbio da tiroide. Mais de 5% vive com sintomas sem sequer saber a origem. A nível mundial, a American Thyroid Association aponta que 60% dos casos permanecem por diagnosticar.
E há um padrão claro: as mulheres são entre 5 a 8 vezes mais afetadas do que os homens. Estima-se que aos 60 anos, 17% das mulheres apresentem hipotiroidismo.
Sintomas que parecem «normais» (mas não são)
A lista de sinais é longa e traiçoeira. Segundo a endocrinologista Paula Freitas, presidente da SPEDM, os sintomas incluem cansaço, sudorese, intolerância ao frio, sonolência, dores musculares e articulares, humor depressivo, alterações de memória, obstipação, irregularidades menstruais e queda de cabelo.
O problema é que qualquer um destes sintomas pode ser facilmente atribuído ao stress, à falta de sono ou ao envelhecimento. É precisamente por isso que tantas pessoas convivem com o problema durante anos sem procurar respostas.
Há ainda uma ligação bidirecional entre stress e tiroide que vale a pena conhecer. Segundo o endocrinologista João Jacobo de Castro, níveis elevados de stress podem contribuir para o aparecimento de doença tiroideia autoimune. E as alterações da tiroide, por sua vez, podem agravar a ansiedade. Um ciclo que se alimenta a si próprio.
Hashimoto: a causa que poucos conhecem pelo nome
O hipotiroidismo primário é o distúrbio mais prevalente da tiroide. E a causa mais frequente tem nome: tiroidite de Hashimoto. Trata-se de uma doença autoimune que representa cerca de 70% dos casos de hipotiroidismo. O sistema imunitário produz autoanticorpos que destroem progressivamente a glândula, reduzindo a produção hormonal.
Do lado oposto está o hipertiroidismo, cuja causa mais comum é a doença de Graves, também de origem autoimune. O hipotiroidismo é, no entanto, cerca de 10 vezes mais frequente.
Entre os fatores de risco identificados pela DGS estão os antecedentes pessoais de disfunção prévia, bócio, cirurgia ou radioterapia da cabeça e pescoço, doença autoimune, história familiar, síndrome de Down e Turner, idade superior a 60 anos e pós-parto.
Duas análises ao sangue. É só isso.
Se há algo que os especialistas repetem é o seguinte: o diagnóstico é simples. Bastam duas análises ao sangue, a TSH e a T4 livre, para identificar uma disfunção da tiroide. É rápido, acessível e disponível em qualquer laboratório.
A DGS recomenda ainda suplementação de iodo, sob orientação médica, para grávidas e mulheres que amamentam. A carência de iodo durante a gestação pode originar malformações no feto e atraso no desenvolvimento mental.
E quando surgem nódulos? Menos de 5% dos nódulos tireoidianos são malignos. A esmagadora maioria, 95%, é benigna. O cancro da tiroide é o quarto tumor mais frequente nas mulheres e ocorre sobretudo entre os 30 e os 60 anos, mas a taxa de sobrevivência é elevada quando detetado a tempo.
O que fazer a partir de agora
Se sente cansaço persistente, frio sem explicação, alterações de humor ou queda de cabelo, peça ao médico de família que inclua a TSH nas próximas análises. É um exame simples que pode mudar a forma como se sente todos os dias. Partilhe esta informação com quem precisa de a ouvir.
De: https://sapo.pt
