Os dias de férias com que sonhou durante todo o ano finalmente chegaram, mas, sempre que tenta relaxar, é atropelado pelos pensamentos relacionados com o trabalho? Esta resistência em desligar é comum a muitas pessoas, que têm dificuldade em abrandar o ritmo e deixar as obrigações profissionais em pausa.
Em declarações ao Viral, a psicóloga Teresa Espassandim explica porque é que isto acontece e que estratégias deve pôr em prática para conseguir desligar o “modo trabalho” e ativar o “modo férias”.
Porque custa tanto desligar do trabalho nas férias?
A dificuldade em desligar do trabalho durante as férias é fruto de uma combinação de fatores e “raramente resulta apenas do volume de trabalho”, começa por explicar Teresa Espassandim.
Um dos principais fatores apontados pela psicóloga é a ansiedade: “No fundo, a ideia de que, se eu desligar, alguma coisa vai correr mal ou não vai acontecer da forma prevista.”
“A ansiedade faz isto a todos nós: leva-nos a sobrestimar os riscos e a subestimar a nossa capacidade para lidar com esses mesmos riscos ou com as tarefas quando regressarmos”, acrescenta.
A isto pode aliar-se também “um sentido excessivo de responsabilidade”. Por outras palavras, “há pessoas que acreditam que só elas conseguem resolver os problemas, que a equipa depende delas ou que, se não responderem imediatamente, estão a falhar”. No entanto, lembra a especialista, “frequentemente, isto é uma perceção e não uma realidade objetiva”.
A hiperconectividade, ou seja, o facto de, hoje em dia, termos acesso a tudo o que está a acontecer no mundo (e na nossa caixa de entrada do e-mail) a toda a hora também contribui para esta dificuldade em desligar.
“O telemóvel é um computador de bolso e os smartphones tornaram praticamente impossível uma verdadeira ausência ou um verdadeiro afastamento do trabalho. Mesmo sem estarmos a trabalhar, basta ver um e-mail, uma mensagem ou uma notificação para que o cérebro volte imediatamente ao modo de trabalho, mesmo que seja apenas por um minuto”, exemplifica.
Noutro plano, “há pessoas cuja identidade está muito centrada no trabalho”. Por isso, quando estas pessoas “abrandam, mudam a rotina ou são obrigadas a parar, podem surgir perguntas difíceis como: ‘E agora? O que é que eu faço com o meu tempo?’ Ou até: ‘Quem sou eu, se não for o meu trabalho?’”.
Nesses casos, quando “deixam de existir as rotinas e a segurança da estrutura que o trabalho oferece, isso pode gerar desconforto e ansiedade”.
Os benefícios de desligar do trabalho durante as férias
Para a psicóloga consultada pelo Viral, conseguir desligar do trabalho durante as férias é fundamental, porque “facilita a recuperação psicológica e fisiológica, o que vai trazer inúmeros benefícios”.
Desde logo, “quando estamos menos focados e menos atentos ao trabalho, aquilo a que a psicologia chama de ruminação diminui”. Ou seja, “quanto menos ruminamos sobre o trabalho, melhor recuperamos”.
Se essa recuperação acontecer também a nível cognitivo, “regressamos ao trabalho com maior capacidade de concentração, tomamos melhores decisões, adiamos menos tarefas e temos maior tolerância ao stress e menos conflitos”.
As férias podem contribuir também para um maior relaxamento, o que “não significa apenas estar deitado”, significa “facilitar a redução da ativação fisiológica”.
“Quando nos dedicamos a atividades como passear, caminhar, ler, estar na praia, fazer jardinagem, ouvir música ou meditar, estamos a predispor-nos a um estado de menor ativação. E isso contribui para reduzir o cortisol, a hormona libertada em situações de stress”, explana.
Por outro lado, “o cérebro beneficia da novidade”. Assim sendo, quando nos desligamos completamente das tarefas profissionais durante as férias e conseguimos, por exemplo, “conhecer um sítio novo, experimentar uma atividade diferente ou aprender alguma coisa”, isto “aumenta as emoções positivas e reduz os pensamentos ruminativos”
As estratégias para ativar o “modo férias”
Para conseguir desativar o “modo trabalho” durante as férias, é fundamental pôr em prática algumas estratégias antes mesmo de chegarem os dias de descanso.
Um erro comum é deixar tudo para a última semana de trabalho: “Na clínica, não é nada raro ouvir pessoas dizerem: ‘Tive férias e não descansei nada’ ou ‘Quando cheguei às férias já estava exausta’”, conta Teresa Espassandim.
Por isso, recomenda, “o ideal é terminar os assuntos mais importantes antes, delegar tarefas e responsabilidades, partilhar documentos e avisar os contactos com antecedência, e não apenas no último dia”.
Pode ser útil também “criar alguns rituais para encerrar o trabalho antes de partir de férias”, como, por exemplo, “arrumar a secretária, fechar tarefas ou escrever uma lista com aquilo que fica para tratar no regresso”.
“Muitas vezes, estamos preocupados com não nos esquecermos de um determinado projeto ou tarefa. Escrever tudo ajuda-nos precisamente a não ter de guardar isso na cabeça”, acrescenta.
Outra estratégia passa por definir limites: “Deixar preparada uma mensagem automática de ausência (out of office), indicando quem fica a substituir-nos e em que situações essa pessoa deve ser contactada, é um bom exemplo. Quanto mais clara for essa mensagem, mais claro também fica, para nós, o que acontece durante a nossa ausência e menor tende a ser a ansiedade”.
Já durante as férias, “é importante evitar verificar e-mails ou mensagens de trabalho, mesmo que seja só por curiosidade”.
“Esse ‘só por curiosidade’ não existe. Há uma reativação no cérebro do modo profissional. Apenas cinco minutos podem desencadear horas de ruminação, mesmo que estejamos num contexto de descanso”, explica.
Como na teoria é tudo mais fácil do que na prática, é crucial “darmo-nos tempo para nos adaptarmos” e aceitar que podemos demorar mais tempo a desligar do trabalho do que outras pessoas.
“Há pessoas que precisam de dois ou três dias para realmente desligar e entrar em modo de férias. Outras conseguem fazê-lo de forma mais imediata. Saber aquilo de que precisamos aumenta a probabilidade de isso acontecer com menos ansiedade e menos conflito”, realça.
Para quem tem dificuldade em ligar o “modo descanso”, é fácil ceder à tentação de “transformar as férias noutro projeto”.
“Há pessoas que planeiam tudo ao minuto e têm muita dificuldade em abdicar do controlo. Mas isso é apenas substituir um tipo de stress por outro. Organizar minimamente é uma coisa; querer controlar tudo é outra”, alerta.
A especialista lembra, por isso, que “é importante deixar espaço para improvisar, descansar e até para algum tédio saudável, porque isso permite ao cérebro ser criativo e deixar os pensamentos irem para outras paragens”.
Além disso, “vale a pena apostar em atividades que nos absorvam e que sejam agradáveis para nós”. Isto porque, “quanto maior for a concentração numa atividade de que gostamos (seja nadar, cozinhar, fotografar, caminhar, jogar ou ler), menor tende a ser a ruminação sobre o trabalho e maior é a recuperação”.
Se, mesmo com todas estas estratégias, a dificuldade em desligar do trabalho permanecer, é fundamental “não nos penalizarmos, nem nos criticarmos”. Isto é, “vale a pena lembrarmo-nos de que é natural precisarmos de algum tempo para nos adaptarmos a um ritmo diferente”.
“Essa voz interna, sem julgamentos, ajuda-nos a compreender aquilo que estamos a sentir sem alimentar ainda mais esses pensamentos. Não se trata de negar o que sentimos, mas de reconhecer que é normal e que vai passar”, tranquiliza.
Nesses momentos de maior ansiedade, “podemos recorrer a técnicas simples, como a respiração profunda, inspirando lenta e profundamente e expirando da mesma forma durante vários ciclos”.
“Esta técnica ajuda a regular a frequência cardíaca e facilita esse diálogo interno: é natural sentir-me assim, estou apenas a adaptar-me. Descansar é precisamente aquilo de que preciso para continuar a trabalhar bem”, conclui.
