Dormem de forma diferente, mas a necessidade de sono mantém-se. Especialistas explicam por que razão o envelhecimento não reduz a importância nem a duração ideal do descanso.
Durante décadas, a ideia de que o envelhecimento traz consigo uma menor necessidade de sono foi aceite quase como um dado adquirido, ou pelo menos foi este o mito criado durante muitos e longos anos. No entanto, a ciência do sono tem vindo a desmontar este mito, concluindo que as pessoas mais velhas não precisam de dormir menos, precisam, isso sim, de dormir tão bem quanto os mais jovens.
O sono é um processo vital e dinâmico que se transforma ao longo da vida. Tal como outras funções do organismo, sofre adaptações naturais com a idade, mas essas mudanças não significam uma redução da necessidade de descanso. A perceção de que os seniores “já não precisam de tantas horas” resulta, sobretudo, de alterações na estrutura e na continuidade do sono, e não de uma menor exigência fisiológica, diz a psiquiatra com competência em Medicina do Sono Ana Santa Clara ao 24notícias.
Com o avançar da idade, o sono tende a tornar-se mais superficial e fragmentado. Há menos sono profundo e menos sono REM – Rapid Eye Movement ou Movimento Rápido dos Olhos é a fase final do ciclo de sono, caracterizada por sonhos vívidos, intensa atividade cerebral (similar à vigília) e atonia muscular (paralisia temporária do corpo) -, fases essenciais para a recuperação física e cognitiva. Como consequência, surgem despertares mais frequentes durante a noite, o sono termina mais cedo de madrugada e pode haver maior dificuldade em adormecer.
Ana Santa Clara explica que “durante a noite, como há menos quantidade de sono profundo, há tendência a acordar mais vezes; o sono termina mais cedo, frequentemente de madrugada”. Muitas pessoas mais velhas começam também a sentir sono mais cedo ao final do dia, o que altera o ritmo do ciclo sono–vigília e pode criar a perceção de uma redução da duração total do sono.
Na realidade, a necessidade global mantém-se relativamente estável ao longo da idade adulta. “Se somarmos o tempo de sono noturno ao tempo da sesta, verificamos que não existe, de facto, uma diminuição da necessidade de sono”, sublinha a especialista. A sesta, comum nesta fase da vida, não é sinal de maior cansaço, mas antes de maior disponibilidade para descansar. Deve, no entanto, ser curta, idealmente entre 20 e 45 minutos, após o almoço, para não comprometer o sono noturno.
“Estas alterações do sono estão ligadas a transformações neuropsicofisiológicas naturais do envelhecimento. Os sistemas cerebrais que regulam o sono, envolvendo neurotransmissores como a melatonina, a adenosina, o GABA ou a acetilcolina, tornam-se menos eficientes. O cérebro passa a reconhecer com mais dificuldade os sinais de fadiga e a manter um sono contínuo e reparador”, diz.
Além disso, com a idade aumenta a prevalência de perturbações do sono, como a insónia, a síndrome das pernas inquietas e a apneia obstrutiva do sono, esta última com riscos significativos para a saúde cardiovascular e cognitiva. “O sono é interrompido e não tem a duração, nem a qualidade normais”, refere Ana Santa Clara, acrescentando que estas situações podem traduzir-se em fadiga diurna, sonolência excessiva, irritabilidade e dificuldades de concentração.
A qualidade do sono é também influenciada por fatores externos. Isolamento social, sedentarismo, baixa exposição à luz natural, alimentação inadequada e algumas doenças crónicas tornam-se mais frequentes com o envelhecimento e têm impacto direto no descanso noturno. “São riscos que não apenas prejudicam o sono, mas também afetam negativamente a saúde mental”, alerta a médica.
Para preservar um sono reparador, os especialistas defendem a adoção de hábitos de vida saudáveis, como atividade física regular, exposição diária à luz solar e uma alimentação equilibrada. Quando, apesar disso, o sono não é restaurador, é essencial investigar a causa. “Nunca é normal ter de tomar medicação para dormir, seja em que idade for”, adverte Ana Santa Clara. O uso de fármacos sem diagnóstico pode mascarar problemas graves e agravar complicações. “Se o sono não for reparador, tem de se saber porquê”, conclui.
Conclusão: envelhecer não significa dormir menos, significa dormir de forma diferente, e muitas vezes mais vulnerável a perturbações que exigem atenção clínica e hábitos de vida ajustados.
De: https://sapo.pt
