Em Portugal, 1 em cada 10 pessoas sente-se sozinha a maior parte do tempo. Os dados da OMS mostram que a solidão é tão perigosa como o tabaco — e afeta mais gerações do que se pensa.
Sentir-se sozinho pode matar. Não é retórica — é o que dizem os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde. A solidão tem o mesmo impacto no organismo que fumar 15 cigarros por dia, aumenta em 14% o risco de mortalidade por todas as causas e eleva em 31% a probabilidade de desenvolver demência. Em Portugal, afeta 1 em cada 10 pessoas.
Em 2023, a OMS declarou formalmente a solidão «uma ameaça global à saúde». A Comissão sobre Conexão Social estimou que o isolamento foi responsável por cerca de 871 mil mortes anuais entre 2014 e 2019 — o equivalente a 100 pessoas por hora em todo o mundo. São números que deixam pouco espaço para indiferença.
O que a solidão faz ao corpo
Os efeitos físicos do isolamento prolongado vão muito além do mal-estar emocional. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), a solidão está associada a um risco acrescido de doença cardiovascular e diabetes tipo 2. No plano da saúde mental, o espectro é ainda mais vasto: depressão, ansiedade, perturbação bipolar, psicose, perturbação de stresse pós-traumático, perturbações da alimentação, ideação suicida e comportamentos autolesivos.
O dado mais citado — e corroborado por múltiplas fontes — é a comparação com o tabagismo. O cirurgião-geral dos EUA, Vivek Murthy, classificou o fenómeno como uma «epidemia» num relatório de 2023 onde a descreveu como «tão prejudicial para a saúde como fumar uma dúzia de cigarros por dia». A OMS estima que, entre 2014 e 2019, cerca de 871 mil mortes anuais em todo o mundo estavam associadas ao isolamento social.
Em Portugal, o problema já chegou à agenda de saúde pública
Em dezembro de 2025, a Ordem dos Psicólogos Portugueses apelou ao Governo para que o combate à solidão fosse declarado uma prioridade de saúde pública. O motivo é concreto: 1 em cada 10 portugueses admite sentir-se sozinho a maior parte do tempo.
A OPP sublinha que as intervenções para combater o isolamento são custo-eficazes: o retorno pode ir de 2 a 14 euros por cada euro investido. Apesar disso, Portugal não figura entre os apenas 8 países que adotaram políticas públicas específicas — um grupo que inclui o Japão, o Reino Unido, a Dinamarca e a Alemanha.
Não é só um problema dos mais velhos
A imagem do idoso isolado domina o imaginário coletivo sobre a solidão — mas os dados contrariam esta ideia. À escala global, são os adolescentes entre 13 e 17 anos que apresentam as taxas mais elevadas de solidão (20,9%), seguidos pelos jovens adultos entre 18 e 29 anos (17,4%), segundo o relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social.
Um estudo publicado na revista Aging & Mental Health, com dados de 64.324 pessoas entre os 50 e os 90 anos em 29 países, concluiu que a solidão não é uma consequência inevitável do envelhecimento — é fortemente determinada pelo ambiente e pela coesão social. Os investigadores identificaram os adultos de meia-idade como uma população crítica e negligenciada pelas políticas públicas, que se têm focado quase exclusivamente nos idosos.
O discurso mediático pode agravar o problema
Há um paradoxo que merece atenção. Uma pesquisa da Universidade de Michigan, publicada em fevereiro de 2025 na revista Nature Communications, demonstrou que pessoas com uma visão negativa sobre o estar sozinhas se sentem significativamente mais solitárias após períodos de isolamento. Os títulos mediáticos têm 10 vezes mais probabilidade de descrever o estar sozinho de forma negativa do que positiva — o que pode agravar o próprio problema que procura retratar.
O que fazer com esta informação
A solidão não tem uma solução simples. Mas reconhecê-la como um problema de saúde — e não como uma falha pessoal — é o primeiro passo. Iniciativas comunitárias, redes de apoio local e políticas públicas direcionadas têm demonstrado resultados. A investigação mostra que pequenas intervenções podem ter retornos consideráveis, tanto na saúde das pessoas como na economia dos países.
Se se reconhece nestes dados — ou pensa em alguém que reconhece — partilhe este artigo. Por vezes, a conversa que falta é precisamente esta.
