Apesar da preocupação crescente, não há evidência científica de que a luz azul dos ecrãs prejudique a visão. O desconforto visual tem outras explicações – e soluções simples.
Passamos, em média, mais de sete horas por dia a olhar para ecrãs. Seja no trabalho, a fazer scroll no telemóvel ou a ver uma série ao final do dia, os nossos olhos estão sob uma pressão digital sem precedentes.
Como oftalmologista, ouço frequentemente no consultório a mesma pergunta: “Doutora, preciso de óculos com filtro de luz azul para proteger os meus olhos?” A resposta, embora possa surpreender muitos, é simples: não.
Existe uma ideia generalizada de que a luz azul emitida pelos ecrãs LED é quase uma radiação tóxica que queima a retina. Mas, na realidade, a maior fonte de luz azul é o Sol – a luz azul faz parte do espetro visível da nossa estrela e é o que dá ao céu a sua cor. Afinal, somos o Planeta Azul.
A quantidade de luz azul a que estamos expostos através de dispositivos digitais é, por isso, uma fração ínfima daquela que recebemos num passeio de dez minutos ao ar livre num dia nublado.
Até à data, não existem evidências científicas robustas em humanos que comprovem que a luz azul dos dispositivos digitais cause danos irreversíveis ou doenças oculares. Então, porque é que os nossos olhos ardem, ficam secos e pesados após um dia de trabalho?
Na maioria dos casos, estes sintomas estão associados à astenopia digital, também conhecida como fadiga ocular. Trata-se de um fenómeno com duas causas simples e mecânicas.
Uma delas é a diminuição do número de vezes que pestanejamos quando estamos concentrados num ecrã. Normalmente, pestanejamos cerca de 15 a 20 vezes por minuto; à frente de um ecrã, essa frequência cai para menos de metade. Assim sendo, a lágrima evapora, o olho seca e a visão fica turva.
O outro mecanismo é o esforço prolongado de focagem a curta distância. Manter os olhos fixos num objeto próximo durante horas é como segurar um haltere com o braço esticado. O músculo ciliar, que faz a acomodação dentro do olho, entra em espasmo de fadiga.
A luz azul não causa danos oculares diretos, mas tem – isso sim – impacto no ritmo circadiano, o que afeta a qualidade do sono. Ao sinalizar ao cérebro que é dia, a luz azul pode inibir a produção de melatonina (a hormona responsável pelo sono). Por isso, é de todo aconselhável evitar o uso do telemóvel no final do dia, ou ativar o “modo noturno”, que reduz essa componente luminosa. Ao fazê-lo, estará a ajudar o seu corpo a relaxar e a preparar-se para dormir.
Em vez de investir em lentes caras, com filtros de eficácia clínica debatível, há medidas simples que podem fazer a diferença. Proponho três hábitos que custam zero euros e ajudam a melhorar a sua visão.
- A Regra 20-20-20 é o “santo graal” da ergonomia visual. A cada 20 minutos de ecrã, olhe para algo a pelo menos 6 metros de distância (janela, corredor) durante 20 segundos. Este hábito simples ajuda a relaxar o esforço de focagem.
- Se trabalha em ambientes com ar condicionado, use gotas lubrificantes (sem conservantes) para compensar a falta de pestanejo e reduzir a secura dos olhos.
- É também importante manter o monitor a uma distância adequada – aproximadamente um braço – e ajustar o brilho, que não deve ser superior à iluminação da sala: se o ecrã parece uma lanterna no escuro, os seus olhos vão sofrer.
A visão é o sentido que mais nos liga ao mundo moderno. Cuidar dela não exige tecnologia complexa, mas apenas a consciência de que, tal como o resto do corpo, os olhos também precisam de pausas para descansar. E consultas regulares com o seu oftalmologista!
Por: Prof.ª Doutora Maria João Quadrado – Médica Oftalmologista, especialista em Córnea, Superfície Ocular e Cirurgia Refrativa.
De: https://sapo.pt
