Circula nas redes sociais um vídeo em que se defende que todas as doenças “vêm do açúcar”. Alega-se, por exemplo, que “açúcar no cérebro das crianças é chamado de PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção)”, que “o açúcar no sangue é chamado de diabetes” e que “o excesso de açúcar no corpo é chamado de cancro”. Mas será mesmo assim?
É verdade que todas as doenças “vêm do açúcar”?
Não, a ideia de que todas as doenças vêm do açúcar é “completamente falsa”, adianta Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).
Em declarações ao Viral e ao Polígrafo, o médico explica que o vídeo que está a circular nas redes sociais inclui uma série de “exageros e extrapolações”, porque atribui uma relação de “causalidade direta” entre o consumo de açúcar e o desenvolvimento de determinadas doenças que não está validada por evidência científica robusta.
De facto, esclarece Paulo Santos, o consumo excessivo de açúcar pode “contribuir para uma dieta hipercalórica” e levar a sobrepeso, obesidade e/ou insulinorresistência, que são fatores de risco para diversos problemas de saúde, tais como diabetes, problemas cardiovasculares e determinados tipos de cancro. No entanto, isso não significa que o açúcar, por si só, seja a causa direta e única dessas doenças.
O professor da FMUP refere que a alimentação – e o consumo de açúcar, em concreto – são apenas um fator dentro de uma “constelação de aspetos” que podem contribuir para o desenvolvimento de uma doença.
Além disso, sublinha, existem fatores moduladores que podem atenuar ou agravar o impacto do consumo de açúcar, nomeadamente: a prática de atividade física, o estilo de vida, as doses e porções ingeridas e até as combinações de alimentos.
Por exemplo, se um alimento com mais açúcar for consumido numa refeição em que há “uma boa ingestão de fibras alimentares”, a absorção e o impacto metabólico “não serão os mesmos” que teriam comer “um pacote de açúcar de manhã em jejum”, uma ideia defendida também pela endocrinologista Joana Menezes Nunes.
Noutro plano, lembra o médico, retirar o açúcar da alimentação não é a solução para todos os problemas de saúde. “Se tirarmos da alimentação o açúcar e mantivermos a banha de porco, estamos exatamente na mesma, ou provavelmente até pior”, exemplifica.
A PHDA resulta do “excesso de açúcar no cérebro das crianças”?
A alegação de que a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) resulta do “excesso de açúcar no cérebro das crianças” não tem fundamento científico robusto.
A PHDA é, tal como se explica na página dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos da América (CDC,na sigla inglesa) uma perturbação do neurodesenvolvimento, com origem multifatorial, que envolve fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais.
Alguns estudos observacionais sugerem que o consumo excessivo de açúcar poderá agravar os sintomas de PHDA (como a desatenção e a hiperatividade), mas a evidência científica é inconsistente e limitada.
Um estudo de coorte publicado em 2019 não encontrou qualquer associação entre o consumo de sacarose (o chamado “açúcar de mesa” ou “açúcar refinado”) entre os 6 e os 11 anos de idade e a incidência de PHDA, concluindo que “não existe associação entre o consumo de sacarose entre os 6 e os 11 anos de idade e a incidência de PHDA”.
Importa sublinhar que os investigadores assumiram que este estudo tem limitações, dado que os questionários de frequência alimentar utilizados estão sujeitos “a viés de memória e a imprecisões na quantificação da dieta”.
No sentido contrário, outros estudos observacionais sugerem uma possível associação entre o consumo excessivo de açúcar e a PHDA, mas também com limitações.
Uma meta-análise publicada em 2020 identificou uma associação positiva entre o consumo total de açúcar e bebidas açucaradas e sintomas de PHDA.
Porém, ao analisar separadamente o açúcar proveniente de bebidas açucaradas e o açúcar dietético isolado, os autores concluíram que “não existe relação entre o consumo de açúcares dietéticos isoladamente e os sintomas de PHDA”.
A associação encontrada limitava-se às bebidas açucaradas, que contêm outros componentes (como cafeína, corantes e conservantes) que podem estar envolvidos nos efeitos observados.
Os próprios autores destes estudos reconhecem que a evidência é fraca e que “são necessários mais estudos controlados para determinar com precisão a relação de causa e efeito entre o açúcar e a PHDA”.
No mesmo sentido, uma revisão sistemática sobre padrões alimentares e PHDA, publicada em 2019, concluiu que, embora dietas ricas em açúcar refinado e gordura saturada possam aumentar o risco de PHDA, “a evidência atual é fraca” e que “são necessários mais estudos com desenho longitudinal para reforçar esta evidência”.
Em suma, a alegação de que todas as doenças “vêm do açúcar” é completamente falsa. O consumo excessivo de açúcar inserido num padrão alimentar desequilibrado pode, de facto, contribuir para o desenvolvimento de alguns problemas de saúde, mas apenas como um fator de risco entre muitos outros, e não como causa direta e isolada.
Doenças como a PHDA, a diabetes e o cancro têm origem multifatorial, ou seja, envolvem genética, fatores ambientais, estilo de vida e outros aspetos que interagem de forma complexa. Reduzir a causa de todas as doenças ao açúcar é uma simplificação sem fundamento científico.
