Se sofre de uma doença respiratória crónica, como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) ou a asma, é provável que já tenha ouvido falar de programas de reabilitação respiratória. São tratamentos complementares muito utilizados em contexto de patologias respiratórias. Quem deve fazer? Quais os benefícios?

Em declarações ao Viral, Bruno Cabrita, pneumologista e membro da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), explica o que é a reabilitação respiratória, para quem é indicada e porquê.

O que é a reabilitação respiratória?

Bruno Cabrita começa por explicar que a reabilitação respiratória “é um tratamento não-farmacológico altamente custo-eficaz e complementar para os doentes com patologia respiratória”.

Consiste em dois pilares essenciais: “educação e treino de exercício físico, com vista à melhoria da qualidade de vida e adoção de comportamentos saudáveis a longo-prazo”.

Atualmente, “existem vários tipos de programas”. Os hospitalares (de ambulatório) continuam a ser os mais comuns.

No entanto, prossegue o pneumologista, “por falta de resposta, surgiu a necessidade de criar outros programas menos convencionais com recurso à telemedicina (chamadas, videochamadas), domiciliários presenciais ou à distância (home-based) para diminuir o número de visitas ao hospital e reduzir os custos e barreiras principais dos doentes na adesão”.

Além disso, “também existem programas desenvolvidos em doentes internados”.

A equipa responsável por estes programas deve ser, idealmente, multidisciplinar e pode incluir: “pneumologistas, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, entre outros”.

Quem deve fazer?

A evidência disponível mostra que quem beneficia mais deste tipo de programas são as pessoas com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC).

No entanto, “praticamente qualquer patologia respiratória crónica (mas também aguda) pode beneficiar de um programa específico e individualizado”, sublinha Bruno Cabrita.

Hoje em dia, “oferece-se programa de reabilitação respiratória com benefícios descritos para a DPOC, asma, bronquiectasias, fibrose pulmonar, cancro do pulmão, derrames pleurais, entre outras”, esclarece.

Além disso, este tratamento também pode ser recomendado depois de certas intervenções cirúrgicas. “Geralmente existe uma atelectasia (atrofia) do pulmão operado, com formação de líquido (derrame pleural), que, com apoio da reabilitação respiratória, pode voltar a expandir o pulmão, ganhar mais volume e elasticidade, recuperando, por vezes, quase por completo e/ou com mínimas sequelas”, explica o médico.

Apesar dos benefícios da reabilitação respiratória, existem contraindicações. Não podem fazer este tipo de tratamento as pessoas que têm: “doença cardíaca instável”; “doença psiquiátrica que impeça a compreensão e adesão dos exercícios”; e “limitações musculoesqueléticas graves e um grau de dependência elevado que torne impossível a realização dos exercícios propostos”.

Ao contrário do que se possa pensar, as pessoas que fazem oxigenoterapia (administração suplementar de oxigénio) podem fazer reabilitação respiratória.

Num texto da Associação Americana do Pulmão, explica-se que, antes de começar a reabilitação respiratória, o profissional de saúde pode “pedir que faça um teste de caminhada de seis minutos enquanto mede a quantidade de oxigénio no sangue”.

Esse teste vai mostrar “quanto oxigénio precisa durante diferentes tipos de exercício”. Se os níveis de oxigénio baixam quando faz exercício, o oxigénio portátil pode ajudá-lo a permanecer ativo por mais tempo.

Quanto tempo dura um programa de reabilitação respiratória?

Os programas clássicos de reabilitação respiratória realizam-se “2 a 3 vezes por semana, num total de 2 a 3 meses”, adianta Bruno Cabrita. Contudo, o programa “deve ser individualizado às patologias e aos doentes”.

Por exemplo, os estudos mostram que “quanto mais tempo de reabilitação respiratória for oferecido a um doente com DPOC, mais tempo este terá os benefícios do tratamento”, refere.

Por outro lado, “doentes em lista de espera para transplante pulmonar não deverão terminar um programa enquanto não forem transplantados”.

Noutro plano, aponta o médico, “a reabilitação respiratória nos derrames pleurais pode necessitar de menos tempo de intervenção (4-6 semanas), de acordo com a evolução radiológica e outros tratamentos adicionais” (bem como a causa).

Quais os benefícios da reabilitação respiratória?

Em primeiro lugar, é importante perceber que a reabilitação respiratória “é um tratamento complementar à terapêutica médica”, ou seja, “não deve ser visto como um substituto de terapêuticas inalatórias ou outras com eficácia clínica comprovada e indicada para as patologias em questão, independentemente dos seus vastos benefícios”, defende Bruno Cabrita.

De modo geral – sempre mais evidente nos doentes com DPOC -, “a reabilitação respiratória melhora os sintomas, a capacidade de autogestão da doença e a qualidade de vida, e diminui a necessidade de admissões hospitalares não programadas (como episódios de urgência), os internamentos, o tempo de internamento e as readmissões hospitalares”.

“Por todos estes mecanismos e pelo aumento da atividade física, capacidade pulmonar e de exercício”, a reabilitação respiratória também “contribui para a redução da mortalidade”, sublinha.

Apesar disso, ainda existem alguns desafios que, muitas vezes, põem em causa os potenciais benefícios do tratamento.

Os principais fatores que contribuem para diminuir a eficácia são as barreiras à realização da reabilitação respiratória, tais como: “dificuldade em aderir a sessões hospitalares por falta de meios de transporte”; “número de programas insuficientes que obriguem os doentes a maiores deslocações”; “maiores tempos de espera para iniciar o programa”; e “falta de referenciação pelos próprios profissionais de saúde que desconhecem os benefícios da reabilitação respiratória”.

Por outro lado, como é natural, “doentes com mais comorbilidades, que impeçam a mobilidade e compreensão dos exercícios e que dependam de terceiros, estão muito mais limitados nos exercícios e não irão conseguir aderir da mesma forma que doentes fisicamente mais ativos e aptos, contribuindo para uma menor eficácia da intervenção”, defende o pneumologista.

Aliás, “quanto mais tardia for a referenciação para um programa”, mais limitados serão os benefícios, pois a doença torna-se “mais limitativa”, “grave” e – potencialmente – “irreversível”.

No mesmo sentido, “doentes incumpridores de terapêutica estarão também mais limitados na capacidade de exercício físico e poderão não alcançar os mesmos benefícios”, aponta.

O tratamento acabou. E agora?

Quando um programa de reabilitação respiratória acaba, geralmente, “há consultas de seguimento para reavaliação clínica e funcional do doente, para demonstrar os benefícios adquiridos com a intervenção”, explica Bruno Cabrita.

Durante esta avaliação, “as escalas de sintomas são repetidas, bem como testes de capacidade de exercício” e, por vezes, “é necessário repetir exames de imagem para comprovar resolução de atelectasias ou derrames pleurais”.

Em algumas circunstâncias pode ser necessário fazer um novo programa de reabilitação. Isto pode acontecer, sobretudo, quando os sintomas da doença agravam.

De: Reabilitação respiratória: Quem deve fazer? Porquê? – Viral